Pertenço a uma geração onde as iniciações faziam parte da vida e marcavam, como saltos concretos, as diversas etapas da mesma, desde muito cedo até pelo menos à idade adulta.
A Iniciação à vida:
Estou em 1944, concretamente no 15 de Fevereiro, são 21h00. Berro, quando me dão no rabo as palmadas, ditas da vida .
A segunda iniciação a que éramos maioritariamente conduzidos era o baptismo a que se seguia, logo na ida para a escola primária, a catequese, onde os e as jovens aprendiam, como era importante para a sua formação a castidade, a virgindade, a não se deixarem cair na tentação da carne e não se masturbarem, é claro.
Também aprendiam a temer a Deus todo-poderoso, que lá dos céus todos vigia.
As raparigas “futuras mães e dona de casa“ sofriam mais do que nós, os “jovens guerreiros”.
O padre instrutor passava - nos o medo do inferno, o incómodo que seria para as nossas almas a estadia no purgatório e quão bela e interessante era a recompensa, da subida aos céus, que era com quem diz, chegar puro e sem pecados ao paraíso, onde seríamos recompensados dos sacrifícios da vida terrena.
Falhei estas iniciações!
Ou melhor, para dizer a verdade, não foi bem assim.
Bem, a verdade, verdadinha é que fui baptizado quando tinha 12 anos.
A história conta-se em dois tempos : Na aula de religião e moral do meu 2º ano do Liceu Passos Manuel (onde na altura era um aluno de quadro de honra) o jesuíta que nos dava essas aulas perguntou quem é que não era baptizado, ao que eu, na minha ingenuidade, levantei o braço esquerdo (sou canhoto) e me denunciei.
Os meus pais foram chamados à Reitoria e aconselhados a procederem de acordo:
Sumariamente a decisão a tomar tinha apenas, duas faces, dois caminhos; Ou me baptizavam ou eu chumbava o ano.
Os meus pais deram-me a escolher e como eu queria passar o ano preferi entrar pela primeira vez, numa Igreja.
Dizia para os meus botões: não se preocupem, é a primeira e ultima vez que entro nessa casa que cultiva a intolerância.
Assim, aconteceu. Baptizei-me, passei o ano e como me prometera, só muitos anos volvidos é que entrei numa igreja , única e exclusivamente a título turístico .Fico á porta em cerimónias para que sou convidado tais como baptismos e casamentos
Entre estas iniciações do comum dos mortais meus contemporâneos, também fui sujeito a algumas .
A 3º e minha primeira verdadeira iniciação, por volta dos 12 anos, foi a importante e vital constatação e evidente auto-aprendizagem de que um dos princípios fundamentais da vida em sociedade, que devia ser a liberdade de expressão e pensamento, não fazia parte das regras impostas pela sociedade onde vivia.
Instintivamente, com o passar dos anos, aprendi a viver com a liberdade interior de pensar, castrada, inibida da possibilidade da troca de ideias ou debate das mesmas, sem que devesse tomar grandes cautelas.
A partir desse momento da minha vida, aprendi a saber defender-me daqueles que a soldo do poder, tentavam controlar eventuais dissidentes, e identificar quem pensava de modo diferente ou de outro modo.
Foi um grande choque o ter de desconfiar das pessoas, dissimular conversas, não andar sempre pelos mesmos caminhos, verificar se era seguido, etc., etc., etc. Ler Sarte, mais tarde Marcuse, só em casa. E, nada de falar dessas leituras, nem aos amigos.
Alguns deles e meus familiares passaram pelo Aljube ou pela António Maria Cardoso. Eu safei-me.
A quarta iniciação, era a “bufa” a Mocidade Portuguesa, organização da juventude onde o regime nos tentava incutir os valores do fascismo salazarento.
A quinta, era apenas dedicada aos machos! Um dia o pai decidia que era tempo de o rapaz ter iniciação sexual. Levava -o a uma “casa de meninas” de sua confiança, escolhia a rapariga e, ou lhe dizia, “trata lá bem o rapaz”, ou, “sê meiga com ele”. Mas o mais corrente era “tira-lhe lá os 3, que está na hora do rapaz virar homem, não quero maricas lá em casa”.
Outros, tinham essa iniciação pela vontade das tias solteironas que assim, no segredo da alcova familiar, satisfaziam os seus reprimidos desejos sexuais.
Não tive pai ou tia que me calendarizasse a iniciação sexual.
Quanto às raparigas, poucas eram as mães que lhes explicavam porque passaram a sangrar mensalmente pela vagina, mas perdiam todo o tempo que dedicavam às filhas, com conselhos para não engravidarem, pela abstinência, para conservarem a virgindade para o casamento, e treinarem-se para serem boas esposas, atentas obedientes ao marido, como elas.
Outras mães e filhas, poucas, sabiam que o pós-guerra era portador de grandes mudanças. Por isso dialogavam com as filhas de acordo com os sonhos da emancipação. Mas estas raras, grandes e livres mulheres, eram apontadas e afastadas, pelos reprimidos. Não tinham a vida fácil.
O Rock-and-Roll, começava a ouvir-se mas o admirável mundo novo ficou além dos Pirinéus! No entanto, até o “Tuti-Fruty” do Elvis foi posto à venda no Portugal salazarento!
A sexta e última (?) iniciação fundamental para as entidades paternais, acontecia mais uma vez do lado masculino.
A ida para a tropa era considerada como a última etapa para a idade adulta propriamente dita, e representava o corte final do cordão umbilical rapaz/família.
As coisas ficaram um pouco mais feias a partir de 1961 com o inicio da guerra colonial.
“Times thy’are a changing” ,cantava a voz nasalada do Bob Dylan, enquanto o regime se afastava a largo passo dos caminhos da modernidade e, começava a grande mobilização dos mancebos para a defesa da pátria.
A minha ultima iniciação (até hoje) teve como campo de operações a guerra, no confronto comigo próprio ao ter decidido embarcar e ter dado com os costados em Nambuangongo ,em vez de ter trilhado os caminhos do exílio, como tantos outros e amigos fizeram.
Foi também meter - me ao lado dos que cultivavam a incompreensão da irreversibilidade da independência das colónias e, tentar pela diferença, subverter alguns pensamentos?
Foi ir ao frente a frente brutal comigo próprio, com a morte, com o matar?
A minha integração “numa máquina de extermínio” ,onde o Napalm e outras substâncias proibidas por regulamentos internacionais eram usadas quotidianamente, onde se lançavam toneladas de herbicidas para destruir as sementeiras das populações, que estavam refugiadas nas matas, não aconteceu. Fui sempre um alferes marginal, olhado com desconfiança pelos “chicos”, pelos ditos profissionais.
Definitivamente eu não pertencia a esse mundo.
Que fazia eu, no degredo do “mata-mata” ?
Sobrevivi física, moral e intelectualmente, embora com dolorosas e profundas marcas, pesadelos constantes durante muitos anos.
Vivi o “Vietnam dos pobrezinhos” tão violento como o original, cada um na sua proporção de horror . Tanto quanto posso saber, não matei ninguém, nem tal como lhes prometera, deixei morrer nenhum dos soldados que estiveram sob o meu comando.
Só 20 anos depois consegui falar do que vivi sem que ficasse perturbado durante dias nem me assaltassem de novo pesadelos .
” Revolution”,” All we need is love”, cochichavam-me a batida ritmada os Beatles, para me fazerem sonhar com a PAZ .
Os censores do regime não percebiam inglês, só podia ser isso…!
Lisboa Novembro de 2008
Publicado em 8 DE NOVEMBRO DE 2008
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